Novembro 09, 2005

Os filmes de Cédric Klapisch

Pivovárská Flosna, República Checa.

Quem fez Erasmus sabe o quanto «A Residência Espanhola» é um espelho fiel do que acontece quando se vive em comunidade, quando o grupo é culturalmente heterogéneo e se une pela única coisa que realmente os liga naquela brecha de espaço/tempo: estão sozinhos num país estranho. É uma situação única que provoca a aproximação de pessoas que noutras circunstâncias jamais sequer conversariam, quanto mais tornarem-se amigos! Fantástico é que se acaba por adorar essas pessoas... por serem tão diferentes, não enjoam. É o novo 'espírito emigra', um bocado mais chique e muito na moda. Volta-se diferente, tal como voltou o Xavier, que abandona a perspectiva monótona e segura de um emprego de secretária para levar a vida incerta e fascinante de um escritor: a experiência condicionou toda a vida dele e todo o seu destino. Algo que eu própria senti à flor da pele foi a sensação de euforia duma certeza nova e estranha: Sou capaz de fazer o que quiser, não tenho limites e não há lugar aonde não pudesse ir se quisesse, e fazer o que quer que me apetecesse.

«As Bonecas Russas» mostra a fase seguinte da vida das pessoas que essa experiência modificou. O espírito errante permanece, o viajante sobrevive. A história não estagna, evolui... a vida é uma sucessão de eventos: uma colecção de experiências.

«Tout a comencé lá. Quand mon avion a decolé.»

Escrito por AnaDiáfana em 00:30:55 | Link permanente | Comments (0) |

Novembro 06, 2005

Os sons e os cheiros

Já falei disto no texto anterior, mas achei que o assunto requeria uma reflexão mais alargada, e não uma mera referência. Acho que todas as pessoas, mais ou menos, já repararam (quer tenha sido ao ponto de falar nisso ou não), que as situações e as fases da vida ficam marcadas nos cheiros e nos sons como se de fotografias se tratasse, ou até de uma maneira mais vívida, porque nos cheiros e sons não há como fingir sorrisos e estados de espírito ilusórios. Não que esta constatação seja uma grande novidade para ninguém, muito menos para mim, mas esta é a minha colecção de experiências, ergo, não ficaria completa sem uma menção a tão fortes testemunhos das minhas vivências. Já não sei quando foi que reparei nisto pela primeira vez, mas sei que já foi há muito tempo, e sei também que me provocou estranheza nunca ter ouvido falar disto, ao ponto de achar que só se passaria comigo.

Assim, há perfumes indeléveis que nos fazem dores de barriga, por causa da ansiedade que aquele rapaz que o usava no liceu nos provocava; Há músicas que nos fazem sorrir ou chorar, cheiros de comida que nos agonizam sem sabermos porquê, perfumes caros que cheiram a rato morto porque alguém do laboratório o usava, perfumes que nada nos dizem mas que misturados com um leve odor a tabaco desta ou daquela marca já nos deixam alerta, pessoas que nos desagradam porque a voz nos soa igual à de alguém de quem não gostamos, e até o detergente desta ou daquela marca nos fazem lembrar certos romances de cavalaria que na altura líamos. E nunca há dois cheiros iguais: nunca duas pessoas me cheiraram da mesma forma, mesmo que usassem o mesmo perfume.

A fascinação dos cheiros é especialmente bem retratada em «O Perfume» do Patrick Suskind. Jean Baptiste Grenouille, filho bastardo nascido no meio dos mais insuportáveis fedores, nasce com um faro estranhamente desenvolvido, e no entanto, completamente inodoro ele próprio, o que o torna incapaz de suscitar qualquer bom sentimento em alguém, e em suma, de ser amado. A sua vida torna-se então a busca da sua identidade, do seu cheiro, do cheiro ideal. Torna-se no criminoso que se vê a si próprio como o Herói que só busca o calor humano. É o inegável poder dos sentidos.

 

Escrito por AnaDiáfana em 23:18:45 | Link permanente | Comments (3) |

Novembro 01, 2005

Hecatombe dos Sentidos ou O fim anunciado do Luto.

«Da próxima vez que te passar pela cabeça algo como "fui a pior coisa
que te podia ter acontecido", lembra-te só disto: tens passado o tempo
todo desde que te foste embora a assombrar-me com a tua ausência. És uma
coisa muito má, porque me aterrorizas a toda a hora com essa distância
que cravaste entre nós. Foste a pior coisa que me podia ter acontecido
mesmo, porque me deixaste abraçar-te (...),  e depois foste-te
simplesmente embora. (...) não és afinal
uma coisa má. Sabes porquê? Porque as fracções de segundo em
que penso em ti sem me lembrar que estás tão longe conseguem conter toda
a felicidade do mundo. (...)»

Poucas músicas me provocam o mesmo delírio de sensações que a Ba Ba, de Sigur Rós. Não é só pelo estado de espírito em que me encontrava da primeira vez que a ouvi--naquele quarto escuro, com uma luz incipiente e estranha que provinha já não sei bem de onde, e me batia só nos olhos, inebriando-me e provocando-me a sensação de uma brancura quente que me feria a vista. Senti também a pressão visceral da catástrofe iminente, saturada com a doçura do momento, a melancolia da despedida dele, a sensação do corte do cordão umbilical.

A música embalou-me como um Hino ao Nascimento, porque me é impossível, ao ouvi-la, não ter a impressão de que alguma coisa nasce, brota como a água da terra. É isso que vejo naquele som: um fio de água a brotar e a correr inexoravelmente, que segue um percurso desconhecido e randómico, mas fluido, até se esgotar na linha do horizonte.

Tenho a necessidade deplorável de exorcizar, escrevendo, o arrepio visceral que me transmitem cheiros e sons que me foram familiares durante o tempo em que sofri aquela Hecatombe dos Sentidos. Não fora eu preferir encarar isto como sinal de uma vida interior rica, podia considerá-lo algo muito mau, por me provocar um certo mal-estar. Tenho uma fascinação mórbida por tudo o que se relaciona com isso. Uma necessidade irresistível de descobrir e saber tudo, mesmo quando isso me corrói por dentro. Há palavras que beijam e palavras que doem: as que li doem como as chagas do Inferno. Sinto demasiadas vezes uma vitória sem glória, um medo visceral do desengano, a perseguição de uma sombra que diz: "Eu espero". Quero descobrir os pensamentos para saber, compreender as frases, compreender os actos. Devoro com os olhos todas aqueles frases, assisto aos momentos e às vivências alheias, devassando intimidades insuportáveis. Atravesso paredes que me dizem, como a Ba Ba, que é preciso que algo morra para que alguma coisa nasça.

Apesar de tudo, não posso afinal arrepender-me de tanto o que sinto. Quando ele voltar, vou vê-lo chegar com a Hoppipolla, como uma ode triunfal ao fim do luto. Parece que já a oiço.

Escrito por AnaDiáfana em 18:48:08 | Link permanente | Comments (1) |