Janeiro 30, 2006

O Túnel

Há uma luz intensa ao fundo do Túnel, dizem, e há como que uma espécie de chamamento perceptível pelos sentidos. Acho que comecei a chamar-me a mim própria há algum tempo atrás. A princípio creio que não era mais do que um murmúrio débil, uma tentativa fraca de chegar até mim; e no entanto, não deixou de me falar ao ouvido e não me deixou de dizer que eu não era quem eu estava a viver enquanto eu não vesti a minha própria pele.

Creio que é essa a prova da passagem definitiva para a idade adulta; quando se deixa de ser o que se espera de nós, e se passa a ser quem se é, de facto. Como toda a metamorfose, esta é, sem dúvida, uma fase transitória, mas dolorosa.

Deixa-se de ter medo de não ser igual a toda a gente.

Escrito por AnaDiáfana em 22:24:22 | Link permanente | Comments (1) |

Janeiro 04, 2006

O Quadro ou A Diáfana Visão do Eterno Paradigma do Pecado Original.

Em tons de amarelo, preto e verde, sobressai a mulher, de expressão contrita e angustiada, confrangedoramente culpada. Ele toca-lhe no ombro com a rudeza de quem foi ferido na alma por ela, num último ajuste de contas, que nada adianta face à catástrofe que lhe destruiu a realidade. Ela é culpada, o denominador comum da desgraça dele, a serpente que o mordeu e abandonou a definhar e que agora chora lágrimas de arrependimento, mas inúteis. Ela, de cabeça e olhos baixos, sofre com a tortuosa dor aguda da culpa, e da consciência, e da dúvida. Ele ilude mais um instante, de sobrolho carregado e gesto rude, puxando-a, brusco: Todo ele é zanga, dignidade ferida, desejo de vingança, auto-piedade. Todo ele é desespero por mais um só instante em que ela lhe pertença, nem que seja só para fazê-la responder pelos seus actos. Todo ele é fúria e desespero cego, e perda... E ela olha o vazio, sem coragem para se virar, sem força para continuar, antecipando a saudade dum tempo em que não era culpada de fazer sofrer, nem condenada a arrastar as suas penas pelas horas longas. Pobre dela, que sofre o sofrimento de quem não tem razão. 

Escrito por AnaDiáfana em 23:08:36 | Link permanente | Comments (0) |