Outubro 10, 2006

Corpo impaciente

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
Escrito por AnaDiáfana em 10:12:39 | Link permanente | Comments (0) |

O espelho de Narciso

«Preciso que me ajudes... Sim, tu! Eu sei que fui eu quem te renegou, quem nos renegou a nós. Os erros que cometi só podem ser ultrapassados de me rojar a teus pés e me encher duma esperança desesperançada, mas que, ainda assim, existe. Porque tu, ao contrário de mim, tinhas a certeza e me disseste que me esperarias sempre.».

Ainda não estou preparada para o salto final, para o estertor que me trará de volta, para que me abraces finalmente. Quanto aos erros, obstáculos a esta nuvem branca, não sei. Encho-me de uma derradeira paciência, porque não se pode esperar apoio de quem está vazio... O vazio é triste, e feio, e nunca saberá nada sobre o que já tivemos, em tempos. No fundo, apiedo-me de tanto Narcisismo, porque olhar para o espelho não faz com que estejamos acompanhados... é estar só. Lembro-me da despedida egoísta que foi feita naquela noite quente, o Ritual dos Sentidos, e que me marca como um ferro em brasa. Como poderia eu esquecê-la? Faz-me mal e corrói-me por dentro. Renego este pensamento, porque me impede de correr para o objectivo final da redenção. Os erros hão-de desvanecer-se sozinhos, quando bem entenderem, porque afinal só olham para si mesmos... como que para o espelho.

Escrito por AnaDiáfana em 09:55:11 | Link permanente | Comments (0) |