Abril 12, 2006

The office

Uma sala cheia de luz, para despertar os espíritos entorpecidos. Secretárias juntas e expostas, para que tudo o que é feito por cada um seja sujeito ao escrutínio minucioso do outro. Nada escapa ao olhar atento do «Grande Irmão». Os mais novos são avaliados ao segundo. Cada vacilo, cada prova de empenho e esforço são sopesados numa balança contínua de prós e contras. Pessoas são investimentos arriscados, dispendiosos. Têm de corresponder. Por isso respondem eles e quem os levou até ali, depois duma série de entrevistas abstractas e testes empíricos de aptidão. A Lei do mais forte! Escolhidos entre muitos, há que incutir-lhes no espírito a ideia de que são priveligiados e de que são especiais por ali estarem, e logo, têm que estar à altura do muito que se espera deles. Levantar a moral, exibir regras, vender o lugar e o ambiente como mais-valias, como se fossem os anjos de um altar em que o mundo tem os olhos postos. Tudo é imagem, tudo é estatuto. A imagem é tudo, o estatuto é tudo. Gradualmente a engrenagem começa a funcionar como é suposto, mecanizam-se as frases e as atitudes, até serem também mais uma peça do sistema uniforme, mais um parafuso do circuito de roldanas que faz a grande máquina girar.

         Mantenha um registo de tudo o que faz, porque certamente alguém lhe irá pedir esclarecimentos

     Não apresente problemas sem solução; Escolhemo-lo para nos dar soluções

                                   O que conta são os resultados, não o esforço dispendido

        Anote as boas ideias: elas  perdem-se... como as canetas

                                                Nunca diga que algo não é da sua competência

                        O que fica retido na memória é a conclusão:

 

                                 Acabe sempre MAIS FORTE do que começou

 

Escrito por AnaDiáfana em 11:20:15 | Link permanente | Comments (0) |

Abril 09, 2006

Da incessante busca pelo amor

O «amor da nossa vida» não é a pessoa que fica ao nosso lado para sempre. Esse é o nosso amor terreno, a pessoa com quem um dia estaremos sentados à lareira a ler o jornal ou, numa visão optimista, um livro (quem sabe até poesia!) já subjugados pelo peso dos muitos anos em comum, quando os gestos trémulos das carícias, que ainda as há, são meros esboços dos afagos vigorosos de outros tempos... Esse amor é o amor do companheirismo e da cumplicidade. É o amor que fica, o que escolhemos, é a nossa casa. O «amor da nossa vida» é tudo aquilo que nunca vivemos, é tudo o que escolhemos não viver... é o «e se...?», o inacabado, o não resolvido. É a divinização de alguém que nunca seria como a ilusão que escolhemos ter dele para sempre, a idealização duma entidade perfeita para nós que nunca seria palpável. É o inalcançável, já que aquele que escolhemos para ficar do nosso lado nunca poderá vencer a luta desigual e injusta que trava com essa Divindade no íntimo de quem a tem. O «amor da nossa vida» não exige esforço nem empenho porque já é perfeito e, no entanto, nunca será.

O amor terreno quer alicerces, e vigas, e grandes colunas de betão. Quer abraços e beijos quando desfalece e fica doente... Quer frases bonitas quando paira no ar o desconsolo, quer amistosas pancadinhas de encorajamento, e leite quente, e bolachinhas com recheio... só hoje. Quer provar os lábios mesmo quando já não há sabor, ou quando ele está esbatido pelo entorpecimento dos dias. Quer fazer a cama, descascar batatas, e cheirar a comida, às vezes... Dormir pouco, ouvir resmungos, deixar de fazer coisas que gostava de fazer. O amor que fica não é perfeito, mas existe!

És tu a minha casa? 

Escrito por AnaDiáfana em 22:43:57 | Link permanente | Comments (1) |