Maio 21, 2006

Da autosuficiência

Queria dizer antes: consciência da realidade. Somos aquilo que pretendem de nós. Temos de sorrir e ser autosuficientes, não podemos precisar dos outros; a isto chama-se fraqueza humana, e a fraqueza é como em qualquer espécie do Reino Animal, uma condenação a um estado de dependencia que nos torna parasitas ou pode até significar extinção. Em qualquer um dos casos, leva a um fim prematuro da existência. Somos feitos para ser autónomos, estamos preparados até para viver sozinhos, se for caso disso, isolados de qualquer outra presença que não seja indispensável à sobrevivência na sua base. A uma sucessão de fraquezas segue-se a aniquilação final ou a passagem a uma outra fase, que se traduz num estado de força superior... É como a Lei de lamarck enuncia: o uso faz o orgão e a sua funcionalidade. Aprender é vivenciar experiências pedagógicas, que nos preparam ou nos causam a derrota final. Sorrir, parecer feliz e realizado, garantir uma imagem de sucesso e divertimento: é a chave para a atracção dos pares, que do mesmo modo, fogem em debandada à primeira evidência de ruptura.

Um meio diferente pode significar a alteração total das ideias e dos desejos, pode mudar a vida para sempre. Perdemos a noção de quem somos e do que queremos, agimos em conformidade com o momento. Se de repente somos novamente inseridos no ninho, já não sabemos como caber nele, e as coisas são irrevogáveis, mesmo ganhando a consciencia do logro. É tão mau quando qualquer coisa morre em nós, a ideia do que podia ser e não foi. A vida pode ser uma sucessão de momentos felizes, se a encararmos como uma longa experiencia pedagógica.

Quem me dera não aprender tanto.

Escrito por AnaDiáfana em 23:03:51 | Link permanente | Comments (1) |

Maio 18, 2006

Da falha interior

Falta-lhe um bocado.

Verte confiança, transborda serenidade. Não se abala, não sente nada. Não menospreza aquilo que não conhece, daquilo que os humanos sentem... Sabe que lhe falta, mas não pode sentir falta do que não conhece. Sabe que só pode apreciar a vida por cada momento... se num instante quer alguma coisa, e lhe apetece, vai e tenta-a, mas se não a consegue também não sente frustraçao.

Só pode lamentar que os impulsos guiem aqueles que sentem demais.

Escrito por AnaDiáfana em 00:54:51 | Link permanente | Comments (0) |

Maio 11, 2006

Platão (400 aC), diz que “... também nas mulheres e pelas mesmas razões, a chamada matriz ou útero é um animal que vive nelas com o desejo de fazer filhos. Quando fica muito tempo estéril, após o período da puberdade, tem dificuldade em suportá-lo, indigna-se, erra por todo o corpo, bloqueia os condutos do hálito, impede a respiração, causa mal-estar extremo e ocasiona doenças de toda espécie”.

Hipócrates, que foi contemporâneo de Platão, fala da histeria no capítulo reservado às doenças femininas, e corrobora a idéia da movimentação do útero no interior do corpo da mulher também serve como explicação para outras doenças, além da histeria. Por exemplo, a suspensão das regras também era provocada por esta migração uterina. Se a mulher não mantinha relações sexuais e o ventre se encontrava vazio (não grávido), o útero sofria um deslocamento devido ao ressecamento e à leveza, (maiores que o normal), provocados pela ausência do coito.

Hipócrates achava, de facto, que a sufocação da matriz (útero) ocorria, sobretudo, em mulheres que estavam em abstinência sexual.

Naquelas mulheres, os espaços encontrar-se-iam mais vazios que ordinariamente, o útero ressecado e mais leve deslocar-se-ia em direção aos vários órgãos. Quando este se lançava sobre o fígado, causava uma sufocação súbita que interceptava a via respiratória “localizada no ventre”. Nestas ocasiões, os olhos se reviravam, a mulher tornava-se fria e lívida, cerrava os dentes, salivava abundantemente e assemelhava-se aos epilépticos em crise. O prognóstico era bom e o ataque sobrevinha em plena saúde. O útero também podia lançar-se sobre outros órgãos, como o coração, a vesícula, etc. A sintomatologia era variada: vômitos, afonia, dores de cabeça, esfriamento das pernas, etc.

O tratamento hipocrático para histeria, à semelhança dos egípcios, consistia em reconduzir o útero ao seu lugar de origem através de remédios que eram inalados e fumigações de preparados exóticos. A relação entre histeria e, digamos, preenchimento vaginal, era tão marcante que um bom remédio para os casos onde a doente perdia a voz e cerrava os dentes, seria introduzir-lhe na vagina um pessário (consolo) embebido em substâncias perfumadas até que o útero voltasse ao seu lugar. O tratamento preventivo, conseqüentemente, era o casamento para as jovens solteiras e o coito para as casadas.

Escrito por AnaDiáfana em 00:28:19 | Link permanente | Comments (1) |

Maio 08, 2006

O Monstro não precisa de amigos

É monstro sem o saber. E tem alguns sentimentos, também, o que torna um paradoxo a designação. Tem necessidades, muitas... sobretudo físicas, como os animais. Despreza fragilidades emocionais. Basta-se a si próprio e a pessoa que  acompanhará será alguém que esteja por perto à hora certa, que se lhe depare no caminho que estipulou para si e de onde não se desviará um milímetro que seja, centrado no orgulho de quem sabe que vai além das expectativas que tinham sobre ele. Não olha para trás nem cede à fraqueza de se comover com factos do passado. As fotografias de gente que lhe é próxima são meras folhas de papel para onde nunca olha. Não sabe o que são saudades a não ser para se lembrar da falta física e da necessidade de contacto humano para actividades lúdicas de entretenimento. Não é, de resto, essencial, posto que os objectos que possui, escolhidos a dedo, servem-lhe para suprir a básica necessidade consumista de quem gosta de viver um modo de vida a raiar o ascetismo. As mulheres são objectos de adulação por quem se apaixona e inevitavelmente se desilude, ao descobrir que gostam naturalmente dele e de como ele se mostrou na altura em que fazia por consegui-las. Ilude-se, também, no fundo, quando pensa que existe uma parelha certa para ele... no fundo, enfada-se com a companhia, e faz-lhe falta é a distracção. Se alguém precisar dele, escorre como uma enguia e finca os pés como arauto da honestidade, clamando a viva voz que nunca prometeu ser ou dar mais do que aquilo, que a verdade é que têm de o amar como ele é. Faz isto numa altura em que já sabe que é fácil manipular o ser dependente que domou pela meiguice... Faz sofrer e sacode quem se debilita e contorce, em agonia. Não terá saudades, de qualquer modo...

 

Escrito por AnaDiáfana em 19:31:33 | Link permanente | Comments (0) |