Acabo de perceber...
Outubro de 2007. Estou estupefacta com o facto de ter passado um ano inteiro desde a última vez que escrevi. Parece-me, de resto, uma altura acertadamente simbólica para recomeçar, já que passei um ano inteiro a ter fugazes lembranças de escrever mas sempre com a sensação que tinha escrito no mês anterior... Fugazes, porque se desvaneciam no bulício diário como fumo. E o fumo não se consegue segurar...
Tenho de fazer um balanço. Sim, parece-me que um balanço está em ordem... Que me aconteceu em doze meses? Mudei de emprego. Mas isso não interessa, eu continuo a ser eu. Se calhar um eu mais banal, mas também mais equilibrado. Mas banal. Parece-me que é inexorável: a rotina começa a roer-nos a ponta dos pés e vai marchando e galgando terreno até não sermos mais do que uma sombra da figura brilhante que queríamos ser e sempre quase, quase, fomos. Subitamente, tenho uma pilha de livros começados e nunca acabados na mesa de cabeceira, uns quantos esboços perdidos, umas linhas soltas perdidas aqui e ali em papéis semi-amarrotados abandonados em fundos de gavetas e que a mulher-a-dias lê à socapa (de espanador encostado ao ombro e lenço na cabeça, como nos filmes!) e abana a cabeça no fim, perplexa. E o meu eu artístico acena-me de longe, atirando-me notas de vinte, com um ar sarcástico. E piedoso. Ó vil metal! Por ti e pelas férias no estrangeiro, pelo que está no armário, pelos luxos da Fnac desaproveitados e inacabados me proponho definhar em espírito... Que me abandona a esta existência de Yuppie com tendências alternativas, vida a dois de classe média, grotescamente mediana!
Que a solidão é a coisa mais romântica e inspiradora que existe.

Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light. (Comentar)